terça-feira, 22 de novembro de 2022

Os Engenheiros do Caos - Cap 6 - Os Físicos e os Dados

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Os Físicos e os Dados

No fim dos anos 1960, quando o pesadelo da guerra atômica ameaçava destruir o planeta, o dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt imagina, numa peça de teatro, internar Newton, Einstein e Möbius numa clínica dedicada a doenças mentais. No asilo dos Físicos, os pisos são de madeira, as camas são acolhedoras e as varandas dão para as montanhas. Mesmo assim, Newton e Einstein não estão muito encantados pelo lugar e passam seus dias imaginando estratagemas para fugir dali: seus laboratórios os esperam e eles têm ainda mil descobertas a fazer.

Em certo momento, Möbius se vê obrigado a explicar a ambos o que se passa realmente.

“Nós chegamos ao fim de nossa viagem”, declara. “Mas a humanidade ainda não chegou. Nós avançamos sem parar, e hoje ninguém nos segue mais, nós nos lançamos no vazio. Nossa ciência se transformou em algo terrível, nossa pesquisa é perigosa, nossas descobertas são mortais. Como físicos, só nos resta capitular diante da realidade. A humanidade não tem condições de fazer frente à nossa ciência, e ela corre o risco de perecer por nossa culpa.”

“O que isso significa?”, perguntam, então, os outros dois, muito preocupados.

“Que vocês devem permanecer comigo no asilo.”

A peça de Dürrenmatt me voltou ao espírito no dia seguinte ao Referendo inglês, quando o diretor da campanha em favor do Brexit, Dominic Cummings, fez uma declaração algo surpreendente. “Se você quer fazer progresso em política”, ele escreveu em seu blog, “meu conselho é contratar físicos, e não experts ou comunicadores.”

E, de fato, em vez de recorrer aos habituais consultores políticos, Cummings organizou a campanha com a ajuda de uma equipe de cientistas originários das melhores universidades da Califórnia e de uma empresa canadense de Big Data ligada à Cambridge Analytica, chamada AggregateIQ.

O pedido que Cummings fez a esses dois grupos era bem simples: ajudem-me a mirar certo. Digam-me para onde devo enviar meus voluntários, em que portas devo bater, a quem devo mandar e-mails e mensagens nas redes sociais e com que conteúdos. Segundo declarações do estrategista do Brexit, os resultados ultrapassaram todas as suas expectativas. Ao ponto de Cummings, ele mesmo, tirar uma conclusão perturbadora: “Se você é jovem, inteligente e se interessa por política, pense bem antes de estudar ciências políticas na universidade. Você deveria se interessar, em vez disso, em estudar matemática ou física. Num segundo momento você poderá entrar na política e terá conhecimentos mais úteis, com aplicações infinitas [...] Pode-se sempre ler livros de história mais tarde, mas não é possível aprender matemática na hora que se quer.”

Diante desse raciocínio, é legítimo ficar um pouco cético. No fundo, a tecnologia na política muitas vezes tem a tendência de se revelar uma bolha. Após cada eleição, há sempre alguém alegando que o vencedor não foi eleito por razões políticas, porque tinha as melhores ideias ou uma personalidade mais sedutora, mas sobretudo graças a uma nova ciência conhecida só do eleito, desenvolvida em segredo num subsolo qualquer em Wichita ou de Skopje. Após o Brexit e a eleição de Trump, essa tendência atingiu seu paroxismo quando as mídias do mundo inteiro se engajaram numa caça brutal contra os manipuladores ocultos, do Facebook à Cambridge Analytica, passando pelos blogueiros macedônios e as fazendas de trolls russos – todos pessoalmente acusados de tornar possível a concretização daqueles resultados inesperados.

É verdade que diferentes atores têm interesse em amplificar o papel exercido pelas tecnologias no processo eleitoral. As mídias, que têm a partir daí uma história nova e fascinante para contar, no lugar das análises habituais dos politólogos. Os perdedores, que podem dizer, a eles mesmos e a seus partidários, que não foram derrotados por causa de sua má performance, mas por forças obscuras. Os estrategistas, como Cummings, os tecnólogos, os consultores e as plataformas, que podem se gabar de ter mudado o curso da história. Quando Christopher Wylie, o “arrependido” da Cambridge Analytica, admite sua culpa ao vivo diante do mundo inteiro, ao confessar “eu elegi Trump com meus algoritmos”, ele faz, sobretudo, publicidade de si próprio (e da sociedade que finge atacar) mais do que propor um combate pela liberdade e a democracia. Dito isso, é verdade que algumas eleições são decididas por margens tão ínfimas que a capacidade de influenciar ainda que alguns votos, de forma direcionada, pode fazer a diferença. Trump ganhou na Pensilvânia com 44.000 votos de dianteira em 6 milhões; com 22.000 em Wisconsin; e com apenas 11.000 em Michigan.

Num panorama global, é difícil negar que, desde então, alguma coisa fundamental mudou na relação entre a tecnologia e a política.

Os cientistas sempre sonharam reduzir o governo da sociedade a uma equação matemática que suprimisse as margens de irracionalidade e de incerteza inerentes ao comportamento humano. Há dois séculos, Auguste Comte já definia a física social como “ciência que tem por objeto o estudo de fenômenos sociais considerados no mesmo espírito que fenômenos astronômicos, físicos, químicos e psicológicos – ou seja, como sujeitos às leis naturais invariáveis, cuja descoberta é o ponto de chegada das pesquisas. Desde então, muitos propuseram suas visões da “ciência da política”, sem jamais atingir o objetivo de tornar mais previsível a evolução da sociedade.

Mas, nos últimos anos, um fenômeno decisivo se produziu. Pela primeira vez, os comportamentos humanos – que continuavam a ser, até então, fins em si mesmos – começaram a produzir um fluxo maciço de dados.

Graças à internet e às redes sociais, nossos hábitos, nossas preferências, opiniões e mesmo emoções passaram a ser mensuráveis. Hoje, cada um de nós se desloca voluntariamente com sua própria “gaiola de bolso”, um instrumento que nos torna rastreáveis e mobilizáveis a todo momento. No futuro, com a “internet das coisas”, cada gesto irá gerar um fluxo de dados não mais exclusivamente ligado aos atos de comunicação e de consumo, mas também a fatos como escovar os dentes ou adormecer no sofá da sala. Éric Sadin fala, a propósito, de uma “indústria da vida”, o setor mais promissor da nova economia, destinado a canibalizar todos os outros.

Essa profusão inédita de dados – e os poderosos interesses econômicos que ela representa – está na raiz do novo papel dos físicos na política. Para melhor compreender do que se trata, achei melhor ficar longe de todos os encantadores de serpentes que já tumultuam o meio dos Big Data aplicados à política, para tentar voltar aos fundamentos.

Daí ter decidido visitar Antonio Ereditato, um pesquisador que participa das mais importantes experiências internacionais sobre a física de partículas, entre o CERN de Genebra, o Fermilab de Chicago e o J.Parc de Tokai, no Japão. Ele está baseado em Berna, onde dirige o “Laboratory for High Energy Physics” e o “Centro de física fundamental Albert Einstein”. A física aplicada à política só o interessa até um certo grau. “São aplicações já conhecidas”, ele diz, ao me receber num escritório austero que dá a impressão de ter sido concebido por um designer da Wiener Werkstätte. “O verdadeiro pesquisador é, por sua vez, animado pela curiosidade. Ele quer romper as fronteiras do conhecimento. É uma evidência de que é preciso mais fantasia para compreender como o mundo é feito do que para inventá-lo”.

Apesar disso, ele se dispõe a fazer alguns comentários sobre o assunto. “Na física, o comportamento de cada molécula não é previsível, uma vez que cada uma delas é submetida a interações com uma infinidade de outras moléculas. O comportamento de um aglomerado, por outro lado, é previsível, pois através da observação do sistema é possível deduzir o comportamento médio. As interações contam mais que a natureza das unidades, e o sistema, tomado em seu conjunto, possui características – e obedece a regras – que tornam previsíveis as evoluções. As leis da física se aplicam aos comportamentos humanos aglomerados. Claro, não poderemos jamais gerenciar um bilhão de pessoas como um bilhão de moléculas, mas há analogias com base nas quais alguns princípios podem ser aplicados, mesmo se forem sistemas caóticos”.

“A este respeito, como diz Nanni Moretti, as palavras são importantes. Para um físico, afirmar que um sistema é caótico não quer dizer que ele é uma bagunça e que ninguém entende nada. Dizer que um sistema é caótico significa falar de um sistema no qual uma pequena variação das condições iniciais pode produzir efeitos enormes em sua evolução. Um sistema de seres humanos que interagissem entre si pode ser um sistema caótico no qual, por exemplo, uma fake news pode ser a pequena modificação inicial que produz imensos efeitos secundários”.

Até cerca de dez anos atrás, os dados para aplicar as leis físicas aos aglomerados humanos não existiam. Hoje, sim. Nós dispomos, até, de mais dados sobre os aglomerados humanos do que sobre a maioria dos fenômenos físicos que temos o hábito de estudar. “Em regra geral”, confirma Ereditato, “se você analisa um gás, ou um sistema físico estatístico clássico, você tem um número de sensores muito menor do que o número de moléculas. Se você analisa o Facebook hoje, você tem quase tantos captores quanto moléculas, ou seja, usuários. O problema passa a ser a interpretação dos dados. E é aí que pesa a vantagem competitiva do físico, que, ao contrário do político, está habituado a trabalhar com uma quantidade infinita de dados”.

Não faz muito tempo, ter um espírito científico em política representava uma desvantagem. Havia, com certeza, sondagens, mas essas permitiam, na melhor das hipóteses, uma análise grosseira das orientações da opinião pública tomada em conjunto. Cada tentativa de chegar a um enfoque mais preciso era necessariamente cara e produzia, no máximo, resultados aleatórios. O que contava em política, no fim das contas, era a capacidade de estar em sintonia com os tempos correntes e escolher o momento certo, o que caracteriza o animal político desde Tucídides – para quem o líder é aquele capaz de “apontar, entre diferentes coisas iminentes, aquela que realmente acontecerá”.

Num contexto como esse, qualquer projeto para instalar uma administração “científica” da política poderia parecer risível, fruto das angústias de espíritos sem o hábito de enfrentar riscos e incertezas, dois fatores que sempre caracterizaram a experiência política. Hoje, pela primeira vez, essa situação se inverte.

“Antes de intervir num sistema”, retoma Ereditato, “é necessário compreendê-lo, coisa que o homem político não sabe fazer. Esse último se apoia sobre pouquíssimos elementos, algumas pesquisas de intenção e seu instinto. A política adquire informações de base e age em função delas: Salvini, por exemplo, sabe que há pessoas que são contra os imigrantes e tenta conquistar seus votos.”

“O físico, ao contrário, está acostumado a coletar o maior número de dados, ou seja, os valores das variáveis que descrevem o sistema. Além disso, ele realiza quase sempre simulações, submetendo o sistema ao máximo de condições diversas, por meio de experimentos virtuais. No caso de Salvini, não é suficiente saber quantas pessoas são contra os imigrantes: ele quer também saber quantas são aquelas que, sendo contra os imigrantes, querem continuar fazendo parte da União Europeia. Ou qual o ponto de ruptura dos eleitores de seu aliado Di Maio que são com certeza um pouco racistas, mas poderiam, diante dos frequentes excessos, voltar a marchar nas fileiras da esquerda na defesa dos imigrantes, ou da União Europeia.”

“Hoje, os dados para obter respostas em tempo real a essas questões, e a inúmeras outras, existem. Mas para obtê-las é preciso ser capaz de fazer três coisas: conduzir experiências, recolher dados e analisá-los.”

Claro, os físicos não são os únicos a saber lidar com esses três desafios, mas, entre todos os cientistas, são eles que melhor desenvolveram o método das simulações. A física determinista acabou no começo do século XX. Em janeiro de 1900, lord Kelvin anunciava: “Não há mais nada a descobrir, a única coisa que resta fazer é determinar medidas cada vez mais exatas”. Em dezembro do mesmo ano, Max Planck introduzia os primeiros elementos da física quântica, abrindo, assim, as portas de um mundo totalmente novo. Desde então, a física deixou de ser uma disciplina determinista no seio da qual tal causa produz necessariamente tal efeito, pois as variáveis passaram a ser aleatórias no nível mais profundo. Às vezes, nessas condições, não é possível resolver um problema de maneira rigorosa, digital. Adotam-se, então, soluções aproximativas.

“Eis por que os físicos trabalham usando simulações. Faz parte, realmente, de nossa maneira de pensar”, prossegue, ainda, Ereditato. “Nós somos mesmo criadores um pouco perversos. Se o homem constrói um castelo de areia, o físico é aquele que depois de tê-lo construído começa a retirar grãos para ver como ele vai desabar: a partir de que momento, de que lado etc. Depois, repete a simulação milhares de vezes, até compreender qual a regra que rege a estabilidade dos castelos de areia.”

“Hoje as simulações são feitas utilizando também dados reais. Uma vez que você fez a experiência, recolheu os dados e os analisou, você é capaz de identificar as correlações, quer dizer, a maneira como a modificação de um parâmetro, mesmo ínfimo, tem uma incidência sobre seu conjunto. Um sistema, no nosso caso, com muitas variáveis e efeitos caóticos potenciais.”

Só nesse instante se torna possível começar a intervir para produzir um efeito em vez de outro. “Você vai chegar lá otimizando os parâmetros do sistema. Você muda qualquer coisa e melhora o resultado tendo como base o objetivo que busca alcançar. Você quer incitar alguém a clicar num link? Vender sorvetes de pistache? Estimular alguém a votar em você ou, ao contrário, ficar em casa no dia das eleições? Pouco importa o objetivo, há mensagens mais eficazes e mensagens menos eficazes. Os cliques darão a resposta em tempo real e, a partir deles, você pode fazer testes continuamente e ir modificando as mensagens, no conteúdo e na forma, mantendo as características que funcionam e descartando as menos eficazes. Claramente, cada vez que você otimiza os parâmetros, você modifica o sistema; portanto, você deve novamente receber dados para compreender de que maneira, para depois otimizar mais uma vez, e assim sucessivamente, num ciclo quase infinito.”

Concretamente, no caso da campanha em favor do Brexit, as coisas se passaram da seguinte maneira. Num primeiro momento, os físicos estatísticos cruzaram os dados das pesquisas no Google com os das redes sociais e com bancos de dados mais tradicionais, para identificar os potenciais apoios ao “Leave ” [o voto pela saída] e sua distribuição pelo território. Depois, explorando o “Lookalike Audience Builder”, um serviço do Facebook muito popular entre as empresas, eles identificaram os “persuasíveis”, ou seja, os eleitores que não haviam sido trazidos para o campo do Brexit, mas, com base em seus perfis, podiam ainda ser convencidos. Uma vez delimitada a área potencial do “Leave”, Cummings e os físicos de dados passaram ao ataque. O objetivo: conceber as mensagens mais convincentes para cada nicho de simpatizantes. “Durante as dez semanas que durou a campanha oficial, nós produzimos quase um bilhão de mensagens digitais personalizadas, principalmente no Facebook, com uma forte aceleração durante os dias que antecederam a votação.” Também nesse front o papel dos cientistas foi decisivo. O Facebook lhes permitiu testar simultaneamente dezenas de milhares de mensagens diferentes, selecionando em tempo real aquelas que obtinham um retorno positivo e bem-sucedido e conseguindo, por um processo de otimização contínua, elaborar versões mais eficazes para mobilizar partidários e convencer os céticos.

Graças ao trabalho desses físicos aplicado à comunicação, cada categoria de eleitores recebeu uma mensagem sob medida: para os animalistas, uma mensagem sobre as regulamentações europeias que ameaçam os direitos dos animais; para os caçadores, uma mensagem sobre as regulamentações europeias que, ao contrário, protegem os animais; para os libertaristas, uma mensagem sobre o peso da burocracia de Bruxelas; e para os estatistas, uma mensagem sobre os recursos desviados do estado de bem-estar para a União. Graças a todas as versões possíveis dessas mensagens, os físicos de dados puderam identificar as mais eficazes, da formulação do texto ao aspecto gráfico. Puderam também otimizar continuamente, em função dos cliques registrados em tempo real.

Medir o impacto preciso dessa atividade complexa sobre o voto é impossível. Mas tudo indica que foram movimentos importantes. O próprio Cummings escreveu que “se Victoria Woodcock, a responsável pelo software usado na campanha, tivesse sido atropelada por um ônibus, o Reino Unido teria continuado na União Europeia”.

Notemos, ainda assim, que o Vote Leave não tem a exclusividade desse tipo de práticas, que se tornaram cada vez mais habituais nas campanhas eleitorais do mundo inteiro. A começar pela campanha para a reeleição de Obama em 2012, que representou o verdadeiro salto qualitativo na matéria.

Em termos políticos, a chegada do Big Data poderia ser comparada à invenção do microscópio. No passado, a partir de sondagens sempre aleatórias, os comunicadores políticos podiam atingir grandes aglomerados demográficos ou profissionais: os jovens, os professores do setor público, as donas de casa e assim por diante. Hoje, o trabalho dos físicos estatísticos permite enviar uma mensagem personalizada a cada eleitor com base nas características individuais. Isso possibilita uma comunicação muito mais eficaz e racional do que no passado, mas levanta algumas questões problemáticas. Ora, se o cruzamento de dados nos diz que uma pessoa é particularmente sensível ao tema da segurança, será possível enviar a ela mensagens adaptadas (pelo Facebook, por exemplo), enfatizando o rigor de uns ou a covardia de outros sem que o grande público e as mídias saibam. Pode-se, por exemplo, abordar os argumentos mais controversos, endereçando-os somente àqueles que lhes são sensíveis, sem correr o risco de perder o apoio de outros eleitores que pensam diferente.

Como grande parte dessa atividade se passa nas redes sociais, isso implica, ao menos na aparência, uma comunicação entre pares, mais do que uma mensagem que venha do alto: esse tipo de propaganda viral escapa a qualquer forma de controle e de checagem de fatos. Se por acaso algo tiver que ser revelado, sua paternidade poderá facilmente ser negada pelo ator político que está na origem do fato divulgado. O resultado é que o que alguns começam a definir como “dog whistle politics”, “política do apito para cão”, quando só alguns percebem o chamado, enquanto outros não ouvem nada.

Sob essa vertente, a campanha de Trump de 2016 deu um grande passo à frente. Através de um investimento maciço no Facebook e graças à equipe de técnicos gentilmente postos à disposição pela empresa de Mark Zuckerberg, os spin doctors digitais de Donald testaram 5,9 milhões de mensagens diferentes, contra 66 mil de Hillary, colocando assim em prática, de maneira compulsiva, o processo de otimização contínua do qual falava Ereditato. Mas a campanha de Trump não se contentou em utilizar os Big Data para elaborar as mensagens mais eficazes destinadas a seus próprios apoiadores. Ela instalou também um dispositivo maciço para desestimular os eleitores democratas de irem às urnas, concentrando-se em particular em três alvos: os liberais idealistas, brancos, que haviam apoiado a campanha de Bernie Sanders, o rival democrata de Hillary durante as primárias; as mulheres jovens de 18 a 35 anos; e os afro-americanos residentes em bairros conturbados das grandes cidades.

Os primeiros foram bombardeados por mensagens que sublinhavam as ligações de Hillary com a comunidade financeira, os negócios obscuros da fundação de seu marido e todas as informações, verdadeiras ou falsas, que pudessem corroborar a imagem de uma candidata ávida e corrupta, irremediavelmente comprometida com o “partido de Davos”.

No que se refere às mulheres jovens, a campanha de Trump não parou de lembrar os escândalos sexuais que mancharam a carreira política de Bill – dos quais essas mulheres não estavam necessariamente a par, já que os fatos datavam de pelo menos duas décadas – e apresentando Hillary como cúmplice de um marido pervertido, movida ou por pura fraqueza, ou por uma ambição sem limites.

Enfim, os afro-americanos dos guetos urbanos foram alvo de mensagens relembrando a reforma na assistência social – que traria o fim das ajudas incondicionais – e um discurso de Hillary no qual ela descreve certa categoria de homens de cor como “superpredadores” que precisam ser “postos de joelho”.

A parte legal desses esforços – aquela que utilizava vídeos e informações reais – foi conduzida diretamente do quartel-general da campanha digital de Trump, em San Antonio, Texas. A parte ilegal, calcada na manipulação e nas fake news, que teve um papel essencial, foi gerenciada de maneira descoordenada por terceiros, blogueiros e sites de informação da direita alternativa, na América e igualmente, ao que parece, em lugares os mais inesperados, como a Macedônia e São Petersburgo. Desse magma indefinido emergiram os ataques mais absurdos – e os mais seriais – contra a candidata democrata, da acusação de ter vendido armas ao Estado Islâmico à de comandar uma rede de pedófilos no porão de uma das pizzarias mais populares de Washington.

O resultado de todo esse trabalho é que, no dia das eleições, muitos eleitores democratas ficaram em casa, abrindo as portas da Casa Branca aos seguidores de Trump, mesmo que estes representassem uma minoria do eleitorado tomado em seu todo.

Para além dos casos particulares, que foram objeto de numerosas investigações jornalísticas ou judiciais, é possível tirar pelo menos duas conclusões de caráter mais geral. Em primeiro lugar: uma máquina superpoderosa, concebida originalmente para mirar com precisão incrível em cada consumidor, seus gostos e suas aspirações, irrompeu na política. No início, essa máquina não foi concebida para atingir objetivos políticos, mas essencialmente comerciais. O Facebook e as outras redes sociais são plataformas publicitárias que põem à disposição das empresas instrumentos extraordinariamente avançados para chegar a seus clientes. Mas, uma vez criada, fica claro que essa máquina pode igualmente ser utilizada para fins políticos, como realmente ocorreu nos últimos anos. E, considerando que são simples motores comerciais, as redes sociais não são equipadas – e não têm interesse algum em ser – para impedir os desvios e os abusos.

A única coisa que lhes interessa é o engajamento – o tempo que cada usuário passa na plataforma. Que esse valor aumente em função de um bombardeio de poemas de Rainer Maria Rilke ou de fake news antissemitas, pouco importa para o Facebook. Ao contrário, considerando que seu business model funda-se no fato de não ser um órgão de informação – se não, teria que responder diante da Justiça pelos conteúdos que publica –, o Facebook deve, a todo preço, permanecer neutro em matéria de conteúdo. Para a plataforma, tanto Rilke quanto os negacionistas são iguais e devem continuar iguais, sem o que todo o edifício sobre o qual se ergue o império de Zuckerberg desmoronaria.

Em segundo lugar: graças a essa máquina, as campanhas eleitorais cada vez mais se tornam verdadeiras guerras entre softwares, durante as quais os oponentes se enfrentam com a ajuda de armas convencionais (mensagens públicas e informações verdadeiras) e armas não convencionais (manipulação e fake news ) com a meta de obter dois resultados: multiplicar e mobilizar seus apoios e desmobilizar as bases do adversário.

Essa partida ainda não tomou o lugar do jogo político tradicional, mas está em vias de assumir uma importância capital e já começou a impactar visivelmente nossa sociedade.

No velho sistema, cada líder político só dispunha de instrumentos bastante limitados para segmentar seus eleitores. Ele podia enviar mensagens específicas a certas categorias de base – sindicatos, pequenos empresários e donas de casa –, mas precisava fazê-lo publicamente. Quem quisesse criar um consenso majoritário – e não só de nicho – tinha que se dirigir ao eleitor médio com mensagens moderadas, em torno das quais poderia convergir o maior número possível de pessoas.

O jogo democrático tradicional tinha, portanto, uma tendência centrípeta: ganhava aquele que conseguisse ocupar o centro da arena política.

O mundo dos físicos de dados funciona de maneira diferente. Aqui, para criar consenso, o fato de lançar um projeto político capaz de convencer todo mundo conta muito menos, visto que – como profetizava Michel Foucault há quatro décadas – o povo, massa compacta, foi abolido em benefício de uma reunião de indivíduos separados, cada um passível de ser seguido em seus menores detalhes.

Numa situação assim, o objetivo passa a ser identificar os temas que contam para cada um, e em seguida explorá-lo através de uma campanha de comunicação individualizada. A ciência dos físicos de dados permite que campanhas contraditórias coexistam em paz, sem nunca se encontrarem, até o momento do voto. No novo mundo, portanto, a política é centrífuga. Não se trata mais de unir eleitores em torno do denominador comum, mas, ao contrário, de inflamar as paixões do maior número possível de grupelhos para, em seguida, adicioná-los – mesmo à revelia deles. As inevitáveis contradições contidas nas mensagens enviadas a uns e a outros continuarão, de qualquer forma, invisíveis aos olhos das mídias e do público geral.

O raciocínio vale tanto para as comunidades mais inofensivas, os colecionadores de selos ou os amantes do kitesurf, quanto para as mais perigosas: os fanáticos religiosos e os membros da Ku-Klux-Klan. Se o movimento convergente da velha política marginalizava os extremistas, a lógica centrífuga da política dos físicos os valoriza. Ela não os põe no centro, porque o centro deixou de existir. Mas ela lhes oferece um espaço e respostas.

Uma dinâmica econômica que siga a mesma lógica vem igualmente fortalecer essa tendência. Até alguns anos atrás, como notou Nick Cohen na revista Spectator, ser um extremista político não era nada cômodo. Para ser um maoísta ou um nazista, era preciso ter uma fortuna familiar como Oswald Mosley ou se resignar a uma vida de privações. Hoje, ao contrário, a internet abriu um mundo de oportunidades econômicas aos propagadores do ódio. O propagandista antimuçulmano Tommy Robinson ganha 4 mil libras por mês graças ao tráfego gerado por seus sermões incendiários, e recolheu 100 mil libras num site de crowdfunding para equipar um estúdio de rádio. Ao contrário, na lógica das novas mídias – que acentuam os conteúdos capazes de suscitar as emoções mais fortes – ela cria obstáculos para os pensadores mais moderados, que têm dificuldade em fazer circularem suas postagens e gerar retornos financeiros satisfatórios para eles próprios e para as mídias que os hospedam.

Num ambiente desse tipo, o comportamento dos líderes e dos partidos tende a mudar. Mesmo para os partidos ditos clássicos, a motivação para elaborar uma plataforma coerente e uma mensagem única capaz de interceptar o eleitor médio diminui, enquanto cresce a tentação de multiplicar os sinais, mesmo contraditórios, para capturar os grupos mais díspares. Como se observa muito claramente no caso do Movimento 5 Estrelas, o líder e o partido se transformam num algoritmo, sem linha própria definida, mas capaz de interpretar as demandas mais diversas graças à bússola dos dados. Durante a campanha de 2016, a matemática Cathy O’Neil observou que, para lá do uso dos dados, o próprio Trump se comportava no fundo como um algoritmo de carne e osso, tuitando e bombardeando o público com comentários de todos os tipos – para, em seguida, modificá-los de acordo com as reações.

Como o personagem Revizor, de Gogol, o líder político se torna um “homem oco”: “Os temas de sua conversa são dados por aqueles que o interrogam: são eles que lhe põem as palavras na boca e criam a conversa”. O único valor a mais que lhe é solicitado é aquele comum ao espetáculo. “Never be boring” [nunca ser entediante] é a única regra que Trump segue rigorosamente, produzindo diariamente uma cena de teatro, como o cliffhanger, o final inacabado de uma série que obriga o público a ficar colado na tela para assistir ao episódio seguinte. No fundo, o mérito histórico de Trump foi sobretudo o de compreender que a campanha presidencial era um reality show bastante medíocre. E isso vale até hoje para o Donald em sua versão Commander in Chief. Beppe Grillo aplicou o mesmo método durante anos. Seus meetings eram one man shows dos quais o público participava como se estivessem na sala de teatro: as pessoas se indignavam, ou se emocionavam, às vezes, mas, acima de tudo, riam muito. E tudo gratuitamente...

Hoje, os príncipes do movimento populista mundial aplicam todos o mesmo princípio, cada um com seu explosivo brilho próprio: os tweets chocantes de Trump, as encenações teatrais de Nigel Farage, os posts de Facebook de Matteo Salvini; mal nós comentamos um evento, e este já é eclipsado por outro. No centro do processo, a coerência e a veracidade contam muito menos que a amplitude da ressonância, que cobre o espectro inteiro das opiniões – daquelas que até recentemente reivindicavam carimbo de esquerda radical às que pertencem à extrema-direita. Sem nenhuma intenção de moderá-las, nem de sintetizá-las. Mas, ao contrário, radicalizando-as para em seguida adicioná-las. É a mesma lógica de um estatístico que, para encontrar a temperatura média ótima, põe a cabeça dentro do congelador e os pés no forno.

Bem antes da internet e das redes sociais, Peter Gay definiu, de maneira magistral, a crise da República de Weimar como sendo um colapso do centro do tabuleiro político durante o qual os partidos moderados do centro foram substituídos pelos extremistas. Hoje, os novos instrumentos digitais simplesmente aceleram e reforçam a mesma tendência, que se manifesta em todos os períodos de crise e de deslegitimação das classes dirigentes.

Estamos assim em vias de redescobrir a maneira pelas quais as minorias intolerantes podem determinar o curso da História. “Como chegamos a uma situação em que certos livros são proibidos (ou queimados...)?”, pergunta-se Nassim Nicholas Taleb. “Certamente porque eles ofendem o comum dos mortais. A maioria das pessoas é passiva e não dá grande importância, ao menos não o suficiente para pedir a proibição. Mas de acordo com a experiência, bastam alguns ativistas motivados para conseguir proibir certos livros, ou pôr na lista negra certas pessoas.” Isso ocorre porque uma minoria intolerante, mesmo restrita, é totalmente inflexível e não pode mudar de ideia, enquanto uma parte significativa do restante da opinião pública é mais maleável. Nas condições ideais, e se o preço não é muito alto, esse grupo maior pode decidir alinhar-se à minoria intolerante, dando razão, de passagem, a John Stuart Mill quando escreve que “para triunfar, o mal precisa só da inação dos homens de bem”.

Baseando-se nesse princípio, o físico de partículas francês Serge Galam foi um dos poucos a prever a eleição de Donald Trump. Enquanto todos os comentaristas repetiam que um candidato como aquele não poderia jamais ganhar e que, em todo caso, uma vez as primárias republicanas vencidas, ele seria obrigado a se moderar para aproximar-se do centro, Galam teorizava o contrário: “A vitória de Trump depende ao mesmo tempo da existência de uma pequena minoria de intolerantes e da existência de uma grande maioria de pessoas tolerantes que repeliram mas conservam os preconceitos que Trump quer ativar com suas declarações provocantes”.
Concretamente, segundo Galam, cada vez que Trump causa um escândalo com uma afirmação controversa, ele galvaniza o núcleo dos inflexíveis e envia uma mensagem a todos os outros, fazendo assim baixar o custo da adesão aos princípios dos intolerantes. “Uma dúvida nasce do confronto de argumentos opostos. Nesse instante, um grupo pode escolher seguir Trump, guiado pelo preconceito inconsciente reativado, mas sem a necessidade de se identificar formalmente com o preconceito.”

Nesse quadro, a importância da minoria intolerante é capital. Para que uma dúvida possa se desenvolver no coração da maioria flexível, é necessário que o argumento radical obtenha uma massa crítica que o sustente. Por isso, Trump e os outros populistas não podem se permitir renunciar aos seus apoios mais extremos. São esses que constituem a pedra fundamental da mobilização em seu favor.

A lógica, bem conhecida dos pesquisadores de ciências sociais, é a da teoria do escoamento superficial (ou escorrência). Confrontados a uma nova opinião, voltamo-nos para as fontes e as pessoas que constituem nosso próprio meio de convívio de referência: é uma opinião aceitável? Pode ser compartilhada? Ou deve ser rejeitada como falsa ou enganosa? Para responder, dirigimo-nos aos outros, porque isso faz parte de nossa natureza de animais sociais. E porque, no fundo, é a coisa mais racional a fazer. Na maior parte das questões, não temos informações de primeira mão e devemos confiar naquilo que nos parece ser a opinião dominante.

Nós não verificamos pessoalmente que a Terra gira em torno do Sol, que os nazistas exterminaram seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, ou que as vacinas erradicaram as piores doenças da história da humanidade. Mas vivemos em sociedades, ao menos até tempos muito recentes, nas quais esses fatos foram amplamente partilhados.

O limiar de resistência face a uma nova informação ou opinião varia de pessoa para pessoa. Alguns aceitam mais facilmente porque coincidem com as convicções que já cultivam, e outros têm um grau de resistência mais elevado. Mas o certo é que quanto mais aumenta o número de pessoas que adota uma nova ideia (que as vacinas provocam autismo ou que os refugiados são terroristas, por exemplo), mais o limiar de resistência àquilo que é difícil de aceitar diminui. Uma vez atingida essa massa crítica, pode ocorrer que, de maneira relativamente indolor, uma comunidade inteira adote uma opinião ou um comportamento que inicialmente eram partilhados apenas por uma minoria muito restrita.

Isso se produziu muitas vezes na história do século XX. E é o que se vê hoje com a internet e as redes sociais, que parecem feitos especialmente para acelerar e multiplicar as cascatas cognitivas. 

Na internet, o núcleo dos duros e puros – sites, blogs e páginas de Facebook de extremistas – constitui a fonte primária das cascatas que alimentam a bacia eleitoral de Trump, de Orban e de Salvini. Pode, é claro, acontecer, de tempos em tempos, que uma pequena mão confeccione artesanalmente uma fake news, como pode ocorrer que falsos perfis e robôs automáticos contribuam para o fluxo da corrente. Na verdade, isso acontece muito. Mas o ponto essencial continua a ser que os extremistas se tornaram, em todos os sentidos e em todos os níveis, o centro do sistema. São eles que dão o tom da discussão.

Se, no passado, o jogo político consistia em divulgar uma mensagem que unificava, hoje se trata de desunir da maneira mais explosiva. Para conquistar uma maioria, não se deve mais convergir para o centro, mas adicionar os extremos.

Voltando à física, o problema é que um sistema caracterizado por um movimento centrífugo fica, necessariamente, cada vez mais instável. Isso vale tanto para os gases naturais quanto para os coletivos humanos. Até quando será possível governar sociedades atravessadas por impulsos centrífugos cada vez mais potentes?

No plano econômico, a desagregação começou há 30 anos, quando a dinâmica combinada da inovação tecnológica e da abertura dos mercados começou a aumentar a desigualdade entre os indivíduos.

No plano da informação, o processo é mais recente, mas já bastante adiantado. Hoje, a ideia de uma esfera pública na qual todos são expostos às mesmas informações, como era antes com a leitura de jornais e o ritual do noticiário televisivo, praticamente não existe mais.

A política segue hoje o mesmo percurso. Ela passa da lógica centrípeta que subentendia ainda projetos como a Terceira Via de Clinton e Blair ou as diferentes formas de “Compassionate Conservatism” [“Conservadorismo compassivo”] de Bush e Cameron, a uma estratégia centrífuga que galvaniza e depois adiciona os extremismos. O ponto de ruptura se aproxima perigosamente.

Ainda mais porque liberar os animal spirits, as pulsões mais secretas e violentas do público, é relativamente fácil, enquanto seguir o caminho inverso é bem mais difícil. Trump, Salvini, Bolsonaro e os outros estão destinados, cedo ou tarde, a frustrar as demandas que geraram e a perder o consenso dos eleitores. Mas o estilo político que eles introduziram, feito de ameaças, insultos, mensagens racistas, mentiras deliberadas e complôs, depois te ter ficado à margem do sistema durante décadas, já ocupa o centro nevrálgico. As novas gerações que observam hoje a política estão recebendo uma educação cívica feita de comportamentos e palavras de ordem que irão condicionar suas atitudes futuras. Uma vez os tabus quebrados, não é mais possível colar de novo: quando os líderes atuais saírem de moda, é pouco provável que os eleitores, acostumados às drogas fortes do nacional-populismo, peçam de novo a camomila dos partidos tradicionais. Sua demanda será por algo novo e talvez ainda mais forte.

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