terça-feira, 3 de março de 2020

O Instante Certo - O fotógrafo da luz....


“Não tenho medo da fotografia, à condição de que ela não possa ser usada no céu nem no inferno”, dizia o pintor norueguês Edvard Munch, autor de O grito, antes de experimentar uma Kodak, em 1902. Sebastião Salgado contenta-se em usar a fotografia na Terra. Em matéria de impacto, notoriedade e carga de trabalho, a Terra lhe basta. Ele é, simplesmente, um dos maiores fotógrafos da atualidade. Se não o maior. Por onde passam suas imagens, elas deixam marcas. E, por onde passa Sebastião Salgado, na sua meta quase demente de retratar a humanidade, de garimpar a história do mundo com filme em preto e branco, ele deixa um pedaço de si. Seu inimigo mais brutal é o tempo. Calculando-se, em média, uma velocidade de 1/250 de segundo por foto tirada, ele gastou apenas um segundo para fazer as 250 imagens mostradas no Museu de Arte Moderna de São Paulo e no MAM do Rio de Janeiro numa grande exposição em 1994 — só que, na vida real, elas lhe tomaram sete anos de vida. Seus projetos são pantagruélicos, porque não lhe bastam imagens isoladas,  esteticamente sublimes: é preciso que formem um conjunto que conte uma história, nem que ele tenha de retornar três, quatro vezes ao mesmo trecho de deserto africano. No final de cinco, seis, sete anos de trabalho, o conjunto dessas histórias deve compor um mural para o tema central que ele se propôs desde o começo, e do qual não se desviou.

No seu caso, ao contrário do que ocorria com os planos quinquenais da ex-União Soviética, a coisa dá certo. No momento, está enfiado em algum lugar do Curdistão, a meio caminho do projeto Movimento de Populações, iniciado em 1993 e com conclusão cravada para dezembro de 1999. O projeto está delineado numa brochura bilíngue de trinta páginas (inglês-francês), impressa numa das melhores gráficas do mundo, a Jean Genoud, de Lausanne; e ela não é só para inglês ver. De um total de 39 reportagens planejadas — das portas da Europa à saga dos decasséguis brasileiros, da vida em cidades que terão mais de 15 milhões de habitantes no ano 2000 à saga clandestina dos latinos que conseguem, ou não, cruzar a fronteira americana —, Salgado já realizou dezessete. A migração curda é a de número 18, e só vai terminar quando ele houver retratado a diáspora dos curdos também no Irã, no Iraque e na Alemanha. Nesse ritmo, não espanta que passe oito meses por ano de mochila nas costas.

Henri Cartier-Bresson, nome inseparável da história da fotografia, o aconselhou: Sebastião, enquanto você tiver força, fotografe, viaje, busque. É que chegará a hora em que você vai cansar. Você não conseguirá mais carregar suas máquinas, você vai começar a ver o mundo com olhos um pouco mais velhos. E, quando você começar a julgar [o que vê], melhor parar de fotografar.

Aos 53 anos de idade, Salgado sofre de ansiedade do tempo. Aflige-se por ser um só, por ter tantas ideias que jamais executará.

Relembra: Dia desses, sobrevoando o Afeganistão a baixa altitude num avião da Cruz Vermelha, percebi traços em montanhas absolutamente inacessíveis. Traços de caravanas, a marca do bicho-homem. Meu Deus, pensei, eu preciso conhecer essa gente! Um rosto dessas caravanas pode revelar toda uma história, a cultura de um povo.

“Conhecer”, no vocabulário de Sebastião Salgado, significa “fotografar”, e “fotografar” significa “conhecer”.

O ritual de cada partida sua é minimalista. Tudo deve caber nas duas surradas sacolas de couro pretas que manda fazer e refazer no Rio de Janeiro. Duram, em média, de quatro a cinco anos. Desenhadas para também esconder passaporte, dinheiro e documentos, elas não agradariam à maioria dos fotógrafos: não têm cara de nada. E, se hoje são duas, é porque as costas de Salgado não aguentam mais o peso de um volume único. Nas bolsas vão suas três câmeras Leica — a quarta segue na mala, de reserva — e as quatro lentes com que olha o mundo. Uma de 28mm, uma de 35, uma de 60, sua preferida, e uma zoom de 80-200, para as raras vezes em que não consegue aproximar-se de quem precisa. Apenas 1% das fotos de que gosta foram tiradas com a zoom.

Também vão dois tripés de peito, de uns trinta centímetros cada um, com rótula especialmente desenhada pela Leica para Salgado. “Tripé grande me daria uma imobilidade de bocejar, não gosto”, explica. Nas duas bolsas ainda cabem exatamente trinta rolos de filme, para deslocamentos curtos. Os 270 restantes — precisa de um mínimo de doze filmes por dia — vão numa mochila do exército suíço, de pano grosso e fundo de couro, acondicionados fora de suas embalagens, em prosaicas caixinhas de plástico para slides. “Assim, reduzo em 60% o espaço que ocupam”, diz, garantindo que adorava o curso de estatística nos idos dos anos 1970, quando se formou em economia em Paris. Como todo fotógrafo amador, gasta mais filme quando está mais inseguro. Só trabalha com dois tipos: o velho Tri-X de guerra, de 400 ASA , e um de 3200 ASA , ambos da Kodak, que investe em Salgado há mais de duas décadas.

Adquiriu o hábito de levar material para um mês e meio, pois nunca se sabe, talvez precise engatar uma viagem em outra. “Virei uma entidade autônoma, aprendi a me transportar.” Para a sua atual jornada com os rebeldes do Curdistão, ou outros lugares que classifica de “duros”, soca sua tralha pessoal numa maleta de metal sem divisória, que também serve para sentar em cima, trabalhar em cima, viver em cima. Nela cabem o saco de dormir no qual aguenta até cinco graus negativos, o mosquiteiro, a jaqueta corta-vento dobrável ao mínimo e o casaquinho de penas que, embrulhado, cabe na palma da mão. Ainda leva bússola, potente antena de rádio, minilanterna com bateria extra e umas três lâmpadas de reserva, pois já descobriu que sempre a lâmpada pifa. “E, como não uso mais cabelo”, diz o carecaço Salgado, que há um ano emergiu com o seu novo look zen, “isso facilita as coisas.” Quando suas reportagens o levam para cidades grandes, muda de estilo, e a mala passa a ser de lona. É essa figura singular que se materializa nos locais mais improváveis do mundo, com a obsessão de fotografar. Ao mesmo tempo corpulento e de traços finos, olhar de um azul quase magnético, cílios e sobrancelhas de viking, Salgado tem físico de estrangeiro em qualquer lugar. Ainda assim, consegue fazer-se aceitar entre tuaregues, tribos indianas, mineradores de enxofre indonésios, operários do sul do Cazaquistão, cultivadores de gerânios na ilha Reunião, no oceano Índico. Prefere chegar sozinho.

Se você chega a um lugar com um grupo — mesmo que sejam só duas pessoas —, você chega como uma entidade autossuficiente, protegida. Os outros não vão prestar atenção em você. Já quando você chega sozinho, o ser humano fala com você. Estar sozinho é entrar. Cada fotografia que realizo é um produto final. Só me preocupo em ter um laboratorista que vai me restituir o que o meu espírito sentiu.

Segundo a escritora italiana Anna Cataldi, uma das roteiristas do filme Out of Africa (Entre dois amores) e autora do livro Sarajevo: Voci da un assedio (Cartas de Sarajevo), Salgado desliza por onde vai. “Nenhum flash, nenhum ruído, apenas a Leica silenciosa, trabalhando. Ele fotografa enquanto anda. Consegue fazer com que ninguém preste atenção nele, pois já foi aceito.” Anna e Salgado trabalharam juntos numa cobertura da Croácia. Ela se lembra do sufocante galpão para refugiados em Batnoga, que visitaram em 1994. Era sombrio e escuro. Mas, quando viu reveladas as fotos do local feitas por Salgado, espantou-se com a luminosidade fraterna que sua câmera captou no galpão. Como é possível Anna não ter percebido que havia aquela luz? “O olho humano se adapta muito rápido às variações de luz”, explica o fotógrafo. “O filme, não. Ele registra aquela primeira coisa que você viu, e não o que você está vendo.”

Embora o Brasil represente apenas 1% do seu trabalho, e apesar de já ter passado quase a metade da vida em Paris, Salgado é profundamente brasileiro. Mineiro de Aimorés, é um contador de histórias de fazer inveja. Circula nos salões certos das conexões internacionais e opera com velocidade máxima em quatro línguas, mas nunca perdeu o sotaque. Aliás, seu comando do português é impecável. Jamais utiliza galicismos. E o apelido que virou sua segunda pele, Tião, continua de uso exclusivo da família e dos amigos brasileiros — o til permanece impronunciável no resto do mundo.

Torceu para que fosse brasileiro o nome do primeiro neto, nascido há dois meses em Paris, quando ele estava embrenhado no Afeganistão. “Olha só a careca do Flavinho”, aplaude o avô, que faz fotos de família com o mesmo entusiasmo de um amador. É em sua casa brasileira de Vitória, onde sempre que pode vem se recalibrar com a família, que dá as risadas mais gostosas com o filho caçula Rodrigo, de quinze anos, portador da síndrome de Down. No belo apartamento parisiense dos Salgado, que ocupa todo o segundo andar de um prédio do século XVII , canta-se samba e come-se comida capixaba.

Tudo o que eu faço tem a ver com o Brasil. Eu não quero morrer no estrangeiro, não. Concordo que não sou um fotógrafo brasileiro, no sentido de que não aprendi fotografia no Brasil, não conheci as dificuldades de obter equipamentos nem a falta de material do país. Mas, na fração de segundo de cada fotografia que tiro, eu estou interferindo com minha Aimorés, minha mãe, meu pai, minha escola, com a minha vida, a minha luz. E tudo isso é brasileiro.

Por ironia, somente agora, uma década depois de iniciado e quatro anos depois de ter sido publicado em oito países, chega às livrarias brasileiras o monumental Trabalhadores, o seu megaprojeto de maior fôlego até aqui, no qual Salgado investiu sete anos de vida. Tem dimensão e intenção épicas: fazer sair das sombras o trabalho manual em grande escala, que ainda move boa parte do mundo neste fim de século. No fundo, não se trata apenas de uma obra de fotógrafo. Como em tudo o que Salgado faz, no livro também está o economista que ele foi até os quase trinta anos de idade, o antropólogo que gostaria de ser, o garoto que nasceu “na roça”, como diz — na verdade uma fazenda de trezentos hectares —, e passou dois anos imaginando como era o mundo. Estudante em Vitória, onde conheceu Lélia Wanick, sua mulher há quase trinta anos, ia todos os domingos ao cais do porto para observar a chegada e a partida dos cargueiros.

Nesse livro, seu olhar é declaradamente subjetivo, não documental. “Devemos a Salgado a reconciliação do estético com a militância”, explica o amigo Régis Debray. Seu propósito não é iluminar nossa compreensão da era industrial — aliás, sua lente não se interessa pela máquina, prefere as pessoas. Tampouco se interessa pelo consumo, somente pela produção. Não há lazer no universo que ele documenta. Seus humildes são gigantes, o trabalho, heroico. O tom é de tensão entre a brutalidade do trabalho e a reverência do fotógrafo pelos trabalhadores. E a edição tem a marca de qualidade de Lélia, formada em arquitetura e urbanismo na França. É ela quem dirige e define, até a última legenda, a cara de todos os projetos editoriais e exposições de Salgado que rodam o mundo.

O título, Trabalhadores, da edição original, em inglês, é uma curiosidade à parte. “Travailleurs, na França, ia parecer discurso de Partido Comunista”, relembra Lélia. “Decidimos convidar um grupo de amigos, todos intelectuais de esquerda, para jantar lá em casa e ajudar a pensar. Quanto mais a gente bebia, mais animado ficava o debate. À uma da madrugada, chegamos a um consenso: o título só poderia ser Prolétaires!” “O Jean Lacouture, então, era o defensor mais ardoroso dos proletários”, acrescenta Salgado. “Quando todo mundo foi embora, Lélia e eu nos demos conta da doidice e demos boas risadas.” A edição francesa acabou adotando um título lírico, La Main de l’Homme. O editor de Portugal, por sua vez, optou por Trabalho, que considerou mais neutro, sem a carga política de Trabalhadores.

Por ora, completado ou não o roteiro atual de Salgado no Curdistão, ele sairá de onde está nem que seja a pé para desembarcar no Brasil no início de abril e participar do lançamento mundial, simultâneo em oito países, dessa que é sua obra maismilitante e brasileira: Terra. Não se trata apenas de um livro. É, também, um manifesto, que abre com um portentoso prefácio do escritor português José Saramago e fecha com um CD inédito de Chico Buarque, inserido na contracapa. O CD , de quatro faixas, conterá ao menos duas letras compostas sob medida — “Levantados do chão” e “Assentamento”, um baiãozinho com tudo para virar hino nos acampamentos —, além de uma nova versão de “Brejo da Cruz” e “Fantasia”. Chico, ao receber a maquete do livro, observou que tinha a sensação de estar vendo e lendo uma peça de teatro.

De fato, tudo começa com a gente da terra, o seu trabalho, morte e êxodo, a migração para as capitais, o ponto final em São Paulo e, por fim, a volta à terra. O apoio intelectual e material ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ( MST ), o sujeito oculto da obra, é assumido por todas as partes envolvidas. Chico e Saramago abriram mão dos direitos autorais. Sebastião e Lélia pagam de seu bolso o custo de produção dos 25 mil CD s e 100 mil pôsteres que estarão à venda simultaneamente em duzentos pontos de todo o Brasil. A ONG francesa Frères des Hommes, parceira de Salgado em várias empreitadas, entra com os custos de produção e venda de milhares de pôsteres Terra no exterior. O butim de toda essa blitz de solidariedade vai direto para os cofres do MST, que espera arrecadar perto de 2 milhões de reais. A mobilização será total no dia 17 de abril, data da chacina dos dezenove acampados de Eldorado dos Carajás, ocorrida no ano que passou. Salgado, cuja capacidade de mobilização e de empolgação é notória, chegou a se encontrar com Luciano Pavarotti, em janeiro, no apartamento do tenoríssimo em Nova York, para lhe propor cantar de graça para os sem-terra. Pavarotti havia se apresentado na noite da véspera no Lincoln Center, e ainda estava de sobrancelhas pintadas quando entrou na sala. Sim, aceitaria, se lhe chegasse um convite oficial do governo brasileiro e se pudessem ser resolvidas questões de sua segurança pessoal. Ou seja, não entendeu que o Brasil do presidente Fernando Henrique Cardoso e a turma dos sem-terra não se bicam há quinhentos anos. Salgado agradeceu a atenção, recolheu a maquete do livro e embarcou para mais uma de suas “histórias”, dessa vez na província de Bihar, na Índia, de onde só voltou três semanas depois.

“Dessa vez, eu realmente acho que não tenho nada.” O tom de Sebastião Salgado está soturno. Voltara da Índia na véspera e acordara às quatro e meia da manhã, devido ao jet lag que seu organismo nunca tem tempo de expulsar, e não conseguira matar a saudade acumulada. Começa assim, invariavelmente, a segunda etapa do seu processo de criação — sempre a mais tensa.

Enquanto Lélia, Rodrigo e Paris inteira ainda dormem a sono solto, Salgado vai encarar a primeira pilha de folhas de contato dos filmes já revelados. Ao todo, serão 280 folhas, que lhe tomam duas horas para serem postas na ordem desejada. Na hora do vamos ver, misturam-se ansiedade abissal e expectativa, comum a fotógrafos profissionais do mundo inteiro. O que varia é o patamar da exigência. O de Sebastião Salgado é altíssimo. Por isso, na sofreguidão inicial do trabalho de edição, costuma achar que não tem foto à altura do que viu e sentiu. “Ter as imagens bem estruturadas não significa que ele conseguiu captar a história que se propôs”, diz Lélia.

Ao longo dos três dias seguintes, Salgado dará a primeira grande peneirada nas 10 mil imagens que trouxe da Índia. Assinala uma média quase exata de seis fotos por filme, ou seja, cerca de 1,7 mil imagens. “Sobre essa escolha eu não volto atrás. Jamais revejo uma folha de contato. É como uma primeira triagem na mineração de ouro — você pega todas as pedras que estão próximas do ouro e, por via das dúvidas, pega também a pedra que tenha minério de ferro”, explica.

A essa altura, a Amazonas Images, montada em 1994 às margens do romântico Quai de Valmy, mostra o seu formidável poder de ação. Misto de escritório, ateliê, agência e usina de ideias, a Amazonas só existe em função de Sebastião Salgado. E Salgado, sem a Amazonas, enlouqueceria. Lélia e Sebastião são os donos.Instalada num antigo galpão de armazenamento de carga fluvial, com pé-direito de quase quatro metros, sua sede é um luxo. Não pelos 280 metros quadrados que a arquiteta Lélia remodelou, nem pelo chão de tábuas de peroba importadas do Espírito Santo. O luxo
está na eficácia da estrutura.

Enquanto Salgado chegava da Índia, Pascal Bois, formado pela melhor escola de fotografia da França, a de Arles, embarcava num trem para Paris. A cada retorno de viagem do brasileiro, a Amazonas convoca Pascal para fazer as chamadas “cópias de trabalho” (13 por 18 centímetros), selecionadas nas folhas de contato da primeira peneirada. Pascal chega cedo, enfia-se das seis da manhã até a exaustão no moderníssimo laboratório da Amazonas que fica no subsolo e produz entre trezentas e quatrocentas cópias por dia. Trata-se de um trabalho braçal, de velocidade, mas mesmo assim a Amazonas manda vir um profissional lá do Sul da França.

Só então começa a seleção pente-fino do que Salgado vai querer mostrar ao mundo. Das 1,7 mil “cópias de trabalho”, sairão as trinta, no máximo quarenta, finalistas. As mais fortes. É nessa fase que entra em cena a editora de fotos Françoise Piffard, com sete anos de agência Magnum nas costas, contratada pelo casal Salgado para a Amazonas. “Ela tem um olho fabuloso”, diz o fotógrafo. Sebastião e Françoise editam juntos, e ela é uma das poucas profissionais que ele não consegue intimidar. “Às vezes ele se apega a uma ou outra imagem, perde o rigor, e eu sou obrigada a lhe mostrar que ele pode estar com o apuro deformado por ter vivido o momento fotografado.” Em caso de dúvida chama-se Lélia, regente e árbitro da operação toda. “Lelinha é tão sabida!”, admira-se o marido Tião. Batido o martelo sobre quais imagens serão ampliadas para tamanho 24 por 30 centímetros e enviadas às onze publicações com as quais Salgado tem contrato, começa o trabalho do outro artista da casa. Dominique Granier, 37 anos, profissão laboratorista, um dos melhores do mundo. “O laboratorista que trabalha só com você é tão especial quanto a sua mulher. Acaba se tornando uma relação entre o positivo e o negativo”, sustenta Salgado. São profissionais de personalidade forte, pois ficam trancafiados na câmara escura, sozinhos, horas e horas, dia após dia, o ano inteiro. “Ele precisa ter uma fineza incrível. Ele tem de restituir, na cópia em papel, o que meu espírito viu. Tem de compreender o que eu vi. Temos, nessa hora, uma sincronização quase em nível abstrato.”

Um dos segredos da Amazonas está no equilíbrio da pequena equipe. Françoise, Dominique e a documentalista brasileira Marcia Navarro Mariano, quinze anos de França, responsável pelo acervo de fotos de Salgado e pela operação quase industrial de expedição de cópias, são o corpo. Lélia é a cabeça, Sebastião, a alma. Em 1994, ele trocou a glória de pertencer aos quadros da agência Magnum, sonho inconfesso de onze entre dez fotógrafos, pela necessidade de ter uma estrutura que o apoiasse em tempo integral, na retaguarda, enquanto corre o planeta. Deu certo. Hoje, está entre os três fotógrafos mais bem pagos do mundo: cobra 35 mil dólares por dia de trabalho, para publicidade, e tornou-se o segundo fotógrafo do mundo a pertencer à prestigiosa Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos — o primeiro foi Cartier-Bresson, em 1974.

O estopim de sua fama ocorreu em março de 1981, logo na primeira vez que pisou em Washington. Tinha 37 anos de idade, ainda fotografava em cor, chegara aos Estados Unidos exausto vindo da Austrália e se preparava para tentar uma reportagem na Guatemala. Foi interceptado pelo então diretor de fotografia da New York Times Magazine, Fred Ritchin, para fazer um ensaio de seis páginas sobre os cem primeiros dias do governo Ronald Reagan.

Topou. Como não possuía roupa adequada para se apresentar ao presidente, comprou um par de sapatos, camisa, e se enfiou num terno e gravata emprestados por colegas da Magnum. Chegou à capital americana num domingo, e lembra que o funcionário da portaria do hotel era do município mineiro de Resplendor, localidade próxima à sua Aimorés natal. Na tarde seguinte Reagan falaria nohotel Hilton para membros da indústria da construção civil. Nada de muito promissor. Salgado apostava todas as fichas numa viagem que o presidente faria dois dias depois ao estado do Illinois, a bordo do Air Force One.

Como não houvera tempo para que sua credencial fosse confeccionada pela Casa Branca, Salgado acabou indo para o Hilton no furgão que levava os agentes de segurança do FBI . Eram uns quinze. “Eles foram com a minha cara, riam muito do meu sotaque, do meu jeitão, da minha profissão”, relembra. A poucos segundos do fim do discurso presidencial, Salgado, ansioso, deixou o salão nobre por uma porta lateral e foi procurar a saída do hotel para flagrar Reagan de um ângulo mais movimentado. Pôs-se a correr. Na sua cola, um dos agentes do FBI abria passagem empunhando o distintivo azul e gritava: “Não corre, cara, você não tem credencial, você precisa ficar conosco. Os guarda-costas podem atirar”.

Salgado ainda estava em movimento quando Ronald Reagan despontou na saída VIP. Por um segundo, pensou ouvir fogos de artifício. Mas o barulho era seco e rápido demais. Suas três câmeras estavam com filmes pela metade — dois deles eram de baixa velocidade, o terceiro para luz artificial interna. Azar. Começou a fotografar sem deixar de correr. “Acabei indo parar no meio do cerco, da gritaria, do atirador, da confusão. Eu tinha a impressão de que a cena toda estava indo muito devagar. Na verdade, fiz 76 fotos em pouco mais de um minuto, instintivamente, sem fotômetro nem motor.”

Voltou para a Casa Branca, arrasado, e telefonou para Nova York. “Fred, mataram nossa reportagem. Não vão mais deixar ninguém viajar para o Illinois no avião presidencial”, disse. “Você está louco, cara? A história é outra. O presidente está ferido no hospital, com pelo menos uma bala no corpo”, urrou Fred. Até aquele momento, Sebastião Salgado não sabia que o presidente tinha sido gravemente baleado, tão rápido Reagan fora empurrado para dentro da limusine. Nem Salgado nem os seguranças, nem oatirador, nem o próprio Reagan. “Você tem a foto da cena? Você tem certeza de que tem a foto da cena?”, desesperava-se Fred Ritchin no telefone. “Acho que tenho”, respondeu o brasileiro, no que pode ter sido a maior aposta de sua vida. Em Paris, eram onze horas da noite quando um flash sobre o atentado interrompeu o filme a que Lélia Salgado assistia pela televisão. Falava-se de um jornalista bastante ferido. Ela se angustiou até o flash seguinte, quando viu Tião no meio do tumulto. A cabeça ensanguentada na calçada do Hilton era do porta-voz da Casa Branca, James Brady.

“As fotos não são grande coisa. É tudo muito quente. Tem duas que são boas”, opina o fotógrafo hoje, passados dezesseis anos, rabiscando o cenário do atentado na toalha de papel do restaurante Hôtel du Nord, celebrizado por Marcel Carné no filme homônimo de 1938. Mas eram exclusivas e melhores que as dos três fotógrafos americanos que, em regime de pool, cobriam burocraticamente o presidente. Salgado lembra-se de uma frase que lhe foi dita no calor daquelas horas: “Você vai poder viver dessas fotos por alguns anos”. A revista Newsweek, sozinha, pagou 75 mil dólares por uma delas — uma baba, para qualquer época. A francesa Paris-Match fretou um avião à meia-noite para pegar as imagens do outro lado do Atlântico. A Magnum, que revendeu as fotos para o planeta, saiu do seu eterno buraco financeiro. E Sebastião pôde dar entrada no apartamento de trezentos metros quadrados onde mora até hoje, em Paris. A bolada que recebeu foi de quase 200 mil dólares. Cinco anos depois, quando Sebastião ainda trabalhava para a Magnum, outro furo. Mil novecentos e oitenta e seis fora o ano da descoberta de Serra Pelada pela imprensa mundial. Da National Geographic ao jornal de bairro, todos haviam se despencado até o Pará de câmera na mão. Essa mina de imagens parecia esgotada quando Salgado se interessou pela história, como parte do projeto Trabalhadores, então em sua fase inicial. Ele foi até lá, conviveu com os garimpeiros por três semanas e seguiu direto para o Quênia, onde faria outra reportagem. Acabou não tocando nas folhas de contato de Serra Pelada durante meses. Quando finalmente apresentou o material colhido em maio do ano seguinte, não sobrou espaço para mais ninguém. As imagens definitivas do garimpo de Serra Pelada são suas. As da fome na África, também.

Colecionador dos prêmios mais cobiçados do fotojornalismo, solicitado constantemente para conferências e autor de uma obra exposta em museus, galerias, universidades ou estações de metrô, Sebastião Salgado sabe que ainda tem muito a aprender. Fotografar cidades, para ele, é difícil.

E-mail, ainda não tem. Foi somente em janeiro deste ano, numa passagem-relâmpago por Nova York, que viu uma página de internet pela primeira vez, na casa de um amigo. Procurou e topou com páginas e mais páginas de “Sebastião Salgado”. “Me senti como se me vissem sem calça”, admite. Da fotografia digital, acredita ser possível escapar. “Possivelmente vou poder sobreviver sem ela”, assegura. Para o tipo de história que busca, tecnologia de alta velocidade ajuda pouco. O que conta é sensibilidade e paciência humanas. “Às vezes passo dias inteiros sem bater uma única fotografia.” Para Sebastião Salgado, essa é a provação maior.

Março de 1997

O Instante Certo - Dorrit Harazim

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