terça-feira, 10 de março de 2020

Cartas de um Estoico - V. Sobre a virtude do Filósofo


V. Sobre a virtude do Filósofo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu o elogio e me encho de contentamento pelo fato de você ser persistente em seus estudos, e que, colocando tudo de lado, você a
cada dia se esforça para se tornar um homem melhor. Não me limito a exortá-lo a continuar; eu realmente imploro que você faça isso. Advirto-o, no entanto, para não agir de acordo com a moda daqueles que desejam ser notáveis em vez de melhorar, fazendo coisas que despertarão comentários sobre o seu vestido ou estilo geral de vida.

2. Deve ser evitado trajes repulsivos, cabelos desgrenhados, barba desleixada, desprezo aberto ao uso de talheres e quaisquer outras formas pervertidas de auto exibição. O mero conceito de filosofia, ainda que silenciosamente perseguido, é objeto de suficiente desprezo; E o que aconteceria se começássemos a nos afastar dos costumes de nossos semelhantes? Internamente, devemos ser diferentes em todos os aspectos, mas nosso exterior deve estar em conformidade com a sociedade.

3. Não se vista demasiadamente elegante, nem ainda demasiadamente desleixado. Não se precisa de peitoral de prata, incrustado e gravado em ouro maciço; mas não devemos acreditar que a falta de prata e ouro seja prova da vida simples. Procuremos manter um padrão de vida mais elevado do que o da multidão, mas não um padrão contrário; caso contrário, assustaremos e repeliremos as mesmas pessoas que estamos tentando melhorar. Temos que compreender que eles estão relutantes a nos imitar em qualquer coisa, porque eles têm medo de que eles sejam compelidos a imitar-nos em tudo.

4. A primeira coisa que a filosofia se compromete a dar é o companheirismo entre todos os homens; em outras palavras, simpatia e sociabilidade. Nós nos diferenciamos se nós somos diferentes dos outros homens. Devemos velar para que os meios pelos quais desejamos atrair admiração não sejam absurdos e odiosos. Nosso lema, como você sabe, é "Viva de acordo com a Natureza" (Lema da escola estoica.); mas é bastante contrário à natureza torturar o corpo, odiar a elegância espontânea, ser sujo de propósito, comer comida que não é somente simples, mas repugnante e desagradável.

5. Assim como é um sinal de luxo procurar finas iguarias, é loucura evitar o que é habitual e pode ser comprado a preço razoável. Filosofia exige vida simples, mas não de penitência; e podemos perfeitamente ser simples e asseados ao mesmo tempo. Este é o meio de que eu sanciono; nossa vida deve se guiar entre os caminhos de um sábio e os caminhos do mundo em geral; todos os homens devem admirá-la, mas devem compreendê-la também.

6. "Bem, então, agiremos como os outros homens? Não haverá distinção entre nós e o mundo?" Sim, muito grande; que os homens descubram que somos diferentes do rebanho comum, se olharem de perto. Se eles nos visitam em casa, eles devem nos admirar, ao invés de nossas mobílias. É um grande homem quem usa pratos de barro como se fossem de prata; mas é igualmente grande quem usa prataria como se de barro fosse. É o sinal de uma mente instável não poder tolerar riquezas.

7. Mas desejo compartilhar com você o saldo positivo de hoje também. Encontro nos escritos de nosso Hecato (Hecato de Rodes foi um filósofo estoico, discípulo de Panécio de Rodes.) que a limitação dos desejos ajuda também a curar medos: "Deixe de ter esperança", diz ele, "e deixará de temer". Mas como, "você vai responder, "coisas tão diferentes podem ir lado a lado?" Deste modo, meu caro Lucílio: embora pareçam divergentes, contudo estão realmente unidas. Assim como a mesma cadeia prende o prisioneiro e o carcereiro que o guarda, assim a esperança e o medo, por mais dissimilares que sejam, caminham juntas; o medo segue a esperança.

8. Não me surpreende que procedam dessa maneira; cada conceito pertence a uma mente que está incerta, uma mente que está preocupada aguardando com ansiedade o futuro. Mas a causa principal de ambos os males é que não nos adaptamos ao presente, mas enviamos nossos pensamentos a um futuro distante. E assim a previdência, a mais bela benção da raça humana, torna-se pervertida.

9. Bestas evitam os perigos que veem, e quando escapam estão livres de preocupação; mas nós homens nos atormentamos sobre o que há de vir, assim como sobre o que é passado. Muitas de nossas bênçãos trazem a nós desgraça; pois a memória recorda as torturas do medo, enquanto a antevisão as antecipa. O presente sozinho não faz nenhum homem infeliz.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

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